Em semana de estréias, o CAIXA PRETA orgulhosamente apresenta: Sexo nas Bancas. De periodicidade mensal, a publicação trata de uma análise bem humorada e crítica das principais revistas do gênero. Utilizando-se sempre de bom humor e respeito para com as nossas leitoras, que são maioria nos comentários dos posts, essa coluna vai agradar tanto os Caixolas, quanto as Caixetas. Dito isso, deliciem-se.
— — —
As bancas de fevereiro permitem ao voyeur mais chegado a um enfoque analítico – nada incompatível, ao contrário do que muitos imaginam, com sua atividade-fim – um interessante estudo sobre um conflito filosófico que hoje está no próprio coração da indústria da nudez. Verdadeiro contra falso? Em muitas palavras, de um lado temos as mulheres emborrachadas, sintéticas e frias, supermulherões exuberantes com seus silicones, plásticas, lasers, recapeamentos dentários, dez mil horas de musculação, feito cereja num belo bolo com gosto de papelão; do outro, mulheres como elas realmente são, com pequenas imperfeições, um ou outro pêlo pubiano extrapolando o limite da calcinha, dobra na barriga quando elas se abaixam para desabotoar a sandália, e, dando foco a tudo isso, uau, aquele olhar entre desafiador e vulnerável, tímido e sacana, indiferente e apaixonado que você, leitor, deve conhecer bem. Olhar de gente, da melhor gente que existe: gente-mulher.

Montado o cenário, vamos à disputa. À nossa direita, representando as mulheres sintéticas, temos a morenaça sul-mato-grossense Gracyanne Barbosa, rainha de bateria do Salgueiro e capa da “Playboy”: reparem nos seios estufados com suas aréolas riscadas a compasso, na dura definição das coxas musculosas, nos lábios picados na medida por abelhas imaginárias. Encantos inegáveis, reconheça-se, embora provavelmente excessivos, e muito bem explorados pelo ensaio que JR Duran ambienta num barracão de escola de samba, entre alegorias de isopor e gesso que compartilham com Gracyanne um clima de faz-de-conta.

Finalmente, à nossa esquerda, representando as mulheres naturais, vemos (e como vemos, detalhes por detalhe, oba!) a gaúcha Michelle Gemelli, uma quase-anônima como a maioria das modelos da “Sexy”, embora contracene com Silvio Santos no quadro televisivo “Topa ou não topa” – mulher saudável, carnuda e meio peludinha, seios ponderáveis e cabelos precisando de uma boa escovada, sola do pé gloriosamente suja de andar na areia da praia e, atenção, linda, linda, linda nos melhores cliques de André Andrade. Isso eu garanto, leitor desconfiado. Não se deixe enganar pela péssima foto escolhida para a capa da revista pelos editores da “Sexy”, em que Michelle parece ser duas coisas que não é: feia e gorda. A capa passa muito longe de fazer justiça ao charme setentoso da moça.
Iniciado o combate, quem ganha? Lamento se não consegui manter o suspense até aqui: como o juiz sou eu mesmo, Santiago, é claro que ganha a mulher de verdade. O troféu Sexo nas Bancas de fevereiro vai para Michelle Gemelli, deixando o segundo lugar para Gracyanne, que, afinal, é mesmo um mulherão, ainda que militando no lado escuro da força. O resultado é, além de uma questão de justiça, uma tentativa de ver se o pessoal pára um pouco para refletir. Quem sabe venham a se tocar que o errante navegante das bancas anda cansado de mulheres virtuais: de frio e falso, basta o encontro carnal mediado pelo brilho do papel couché. Pelo menos a mulher estampada ali precisa parecer uma mulher, não um grafismo. Não é outro o segredo da “Trip”, com aquela naturalidade habilmente estudada das suas “garotas do lado” – “Trip” que, atrasadinha, perdeu o bonde da eleição deste mês, uma pena.
Por: Santiago Fusco
— — —
(Coluna Sexo nas Bancas é um espaço onde, mensalmente, Santiago Fusco irá analisar algumas publicações do gênero.)