Archive for the 'Coluna do Bicudo' Category

Abr 25 2007

Coluna do Bicudo

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PIRAHÃS

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Há três colunas, pensei em falar alguma coisa sobre índios brasileiros (necessariamente os brasileiros). No entanto, soube que dispositivos constitucionais poderiam me causar dor de cabeça, caso o teor das palavras revelasse um tom depreciativo… Acabei falando sobre achocolatado-em-pó.

Porém, recente matéria da Folha de São Paulo tornou impossível a minha não-manifestação. Considerei a hipótese de transcrever integralmente a matéria para esta coluna, mas meu editor prontamente se recusou, me acusando de preguiçoso e me ameaçando com um bastão.

A história é a seguinte:

Uma tribo de caçadores-coletores (sim, a matéria é recente, foi publicada na semana passada) do sul do Amazonas só sabe contar até três. 1, 2, 3… fim.
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Abr 18 2007

Coluna do Bicudo

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Começo fazendo três pedidos de desculpa:

1- Na semana passada fui acometido por uma estranha enfermidade, que impossibilitou minha atividade blogueira. Espero contar com a compreensão dos leitores do Caixa Preta (sobretudo aqueles que acompanham a coluna assiduamente).

2- Também peço desculpas pelo título da coluna de hoje. O termo (tragicômico) não me agrada – é dinâmico. No entanto, não encontrei em meu modesto vocabulário palavra mais apropriada para descrever o relato que farei adiante.

3- Hoje farei uma coisa que, em tese, é chata: contarei um caso real. Por ter que fazer isso, peço desculpas. Odeio 90% dos casos (reais ou mentirosos), tal modalidade narrativa sempre me pareceu suspeita – já que visa agradar mais ao narrador do que seus interlocutores.

TRAGICÔMICO

Fui a uma Colação de Grau, um estranho evento acadêmico-social cuja platéia (com exceção de algumas mães sinceramente emocionadas) é severamente punida por uma devastadora união de elementos insuportáveis: paraninfo; patrono; balões; formandos trajando becas ridículas; apitos; discursos; homenagem aos pais ausentes (peço especial atenção a este quesito) e gritos, muitos gritos.

O auditório que abrigava os formandos e seus convidados estava praticamente lotado. Por se tratar de um local enorme, câmeras filmavam tudo que acontecia no palco e reproduziam as imagens em telões estrategicamente posicionados. Este dado é importantíssimo para o que se seguirá.
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Abr 11 2007

Coluna do Bicudo

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Excepcionalmente, nesta semana, não haverá Coluna do Bicudo.

Na semana que vem, a programação volta ao normal e vocês poderão contar com mais um artigo do Bicudo. Sim, ele dará explicações sobre sua ausência no dia de hoje.

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Abr 04 2007

Coluna do Bicudo

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CONTROLADORES MALUCOS

O debate sobre a crise aérea que assola o Brasil é estéril – como todos que lêem jornal neste país podem perceber. Nada acontece e, de tempos em tempos, a crise volta.

Acredito que para ser realmente solucionado, o problema precisará de uma abordagem mais brasileira, ou seja, menos especializada e mais tosca, leiga, ignorante e imediatista. Tudo aqui deve – e merece – ser visto com menos rigor acadêmico e mais ginga, malícia e improviso, como nossa cultura popular nos ensina.

Como primeira contribuição, darei minha visão genuinamente verde-amarela dos fatos:

A aviação civil brasileira sempre foi um caos, o risco de graves acidentes esteve latente por anos. Mas a coisa andava, os atrasos – quando aconteciam – eram de quarenta minutos ou, no máximo, uma hora; não mais. “Deus é brasileiro” e, portanto, controlava nosso espaço aéreo impedindo o pior.

Então, durante um lapso divino, um avião da GOL caiu e foi o maior acidente do espaço aéreo brasileiro em todos os tempos. Terrível? Sim, terrível.

Agora percebam que intrigante: depois deste lamentável acidente, os famosos controladores de vôo simplesmente enlouqueceram e decidiram que, a partir dali, não seria mais possível trabalharem normalmente (como vinham fazendo há pelo menos três gerações).

A coisa saltou, abruptamente, da absoluta normalidade para o caos completo.
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Mar 28 2007

Coluna do Bicudo

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O DINAMISMO MUSICAL

O violão.

Refiro-me aqui ao violão simples e barato, de modelo inferior, geralmente projetado para atender ao público amador.

O filho quer aprender música e os pais, receosos da possível ausência de talento no menino, cautelosamente adquirem o “violão pra quem ta começando”. Assim, muitas casas possuem um violão. É fácil ter acesso a um violão: ingênuo instrumento musical, tão fundamental para a nossa música popular.

Não é tão ingênuo assim.

Nas mãos de uma pessoa dinâmica o violão torna-se arma letal; arma de fogo carregada e engatilhada, pronta para ser disparada contra os nossos ouvidos.

O cenário é o seguinte:

Amigos bebendo, comendo e conversando alegremente. Pessoas legais. Entre eles está infiltrado um dinâmico, que aguarda ansiosamente alguma brecha para agir. Ele está na ocasião por razões complexas: amigo da namorada do amigo do dono da casa. Não pertence ao grupo, mas isso não o deixa constrangido de forma alguma. A conversa flui entre os amigos e ele, que nem sequer se identificou, começa a dar opiniões, muitas opiniões, sempre convictas. Alguém da turma pergunta:

- Ou, mas como você se chama?
- Ahh cara, a moçada me chama de Rolha!

Eles geralmente ostentam apelidos ridículos e orgulham-se em usá-los, embora seus verdadeiros nomes sejam normais. A conversa continua:

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Mar 21 2007

Coluna do Bicudo

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FRASES CÉLEBRES FALSAS

Com o objetivo de preservar amizades utilizarei nesta coluna nomes fictícios. Os fatos, no entanto, são lamentavelmente verídicos.

O advento da internet me faz repensar, com carinho, o mecanismo da censura. Vou explicar:

Joel está em minha lista de contatos do Windows Messenger®. Versões recentes do programa oferecem espaço para uma frase que, ao ser inserida, surge na lista ao lado do nome da pessoa.

Semana passada Joel utilizou seu espaço da seguinte maneira:

- Alegria é o alimento da alma! – W. Shakespeare.

Joel foi excluído da minha lista e da minha vida.

Ontem mesmo, Dulcinéia registrou ao lado de seu nome:

- Não faça com o próximo aquilo que não gostaria que fizessem com você. – e completou – Assinado: Nietzsche.

Aí foi demais. Iniciei uma conversa:

- E aí Dulcinéia, tudo certo?
- Blz e vc?
- Veja bem, que tal trocar Nietzsche por… “sabedora-popular-cristã” ou algo do tipo?
- Hehe,Como assim? (E uma face amarela com óculos escuros)
- Nietzsche, o filósofo alemão, jamais disse esta frase que você, criminosamente, atribui a ele. Na realidade ele costumou pregar o contrário, questionou a moral cristã etc., enfim, não importa! Tire imediatamente o nome dele do seu messenger.
- Você prefere Nietzsche a Jesus?
- Sim.
- Nossa…
- Eu lhe desejo mal Dulcinéia. Muito mal.

Então – antes de ser definitivamente eliminada – ela me enviou novamente a face amarela (desta vez sem os óculos e com uma feição de assombro).

Legal. Colocarei em meu messenger frases como: “A natação é o esporte mais completo que há.” ou “Não saia no frio sem agasalho pois assim você pode pegar um resfriado.” – e atribuirei a Gandhi, Buda ou Napoleão Bonaparte, para que as sentenças ganhem legitimidade perante meus contatos. Tudo vale.

Mas a troco de que?

Enfim, cheguei a um momento difícil do texto, onde não sei se critico o conteúdo das frases ou a crença das pessoas em seus falsos-autores-solenes.

O que é pior: pensar que “a vida é feita de altos e baixos” é algo digno de ser dito, ou crer que foi Voltaire que nos legou tal sabedoria?

Quanto àqueles que insistem em narrar seu dia por meio do programa… Bem, aí sugiro a intervenção direta de fiscais da Polícia Federal:

- Boa tarde Jardel. Devo informar que o Sr. Está eternamente eliminado do mundo virtual. Defenda-se em 20 segundos.
- Nossa, mas por que?
- Entre outras coisas, por informar a todos de sua lista que sua cadela está aniversariando hoje.
- Mas…
- Adeus.

Obrigado.

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Mar 14 2007

Coluna do Bicudo

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CARPE DIEM

Carpe Diem é chato.

A expressão latina passou a significar “sou superficial mas sei viver” – e costuma ser apregoada por pessoas que são simultaneamente: efusivas, dinâmicas, super-alegres, “de bem com a vida” (o que é isso?), livres e meigas.

Assistir “Sociedade dos Poetas Mortos” aos 15 anos e achar tudo aquilo uma grande lição de vida é salutar para um pré-adolescente. Sustentar a idéia pela juventude afora levando o fardo para a vida adulta – e destruindo a alegria alheia – já se torna preocupante.

E agora o mundo virou isso. Pessoas “amam a vida” e orgulham-se em dizer que vivem cada minuto intensamente (porque proceder assim representa algo positivo em algum planeta).

Vociferam o grito de guerra:

- Carpe Diem!

E prosseguem:

- Uau! Simbora, vamos lá, vivam, vivam! Vamos pular na piscina com roupa, tacar a mão no fogo, lambuzar, sair correndo na chuva, cuspir na cara dos inimigos, falar o que pensamos quando der na telha; Isso que é viver, o resto é resto, o resto é bobagem, vamos bebemorar!

(Espero que todos que costumam dizer “bebemorar” paguem caro por isso algum dia.)

Não importa o fato óbvio e triste de que quem vive assim costuma ter, todas as noites no quarto, sozinho, com as portas fechadas, um melancólico encontro com uma tristeza brutal. E assim é o eterno processo: no meio das pessoas, o teatro. Alegria, conselhos vazios, inconseqüência, intensidade. Sozinhos: a total falta de habilidade e destreza psicológica para lidar com sentimentos como: solidão e incerteza.

O ciclo descrito acima pode acabar culminando em suicídio. A pessoa não suporta o grande vazio que é sua vida e, no apogeu prático (e trágico) de sua máxima carpediana, com a contumaz intensidade, põe fim na própria vida.

Mas infelizmente isso nem sempre ocorre.

Sigo com fé. Espero que o Senhor desça (ou suba) do trono, rompa seu silêncio e venha explicar às pessoas que tudo é de fato uma grande aventura sem sentido, mas que isso é um motivo a mais para não sofrer (não o contrário).

Na pior das hipóteses, que Ele venha ao menos contar tudo que já contou pro Bergman.

Tentar conversar com Ele pode ser inútil. Provavelmente será. Certamente será. Ele é silencioso. Não responde, não fala. Já a morte discursa com fluência invejável e costuma sussurrar todos os dias nos nossos ouvidos. Tentar tapeá-la com falsa-alegria é, no mínimo, inocente. Isso não é “saber viver”.

Eu liguei pro Bergman*, foi ele quem me contou.

Ao final da conversa, com seu sueco macio, ainda disse:

- Carpe diem é o caralho!

Obrigado.

— — —

* Ingmar Bergman é um importante cineasta sueco. Muitos de seus filmes abordam, de maneira simbólica ou direta, o silêncio de Deus.

(Coluna do Bicudo é um espaço no qual, toda quarta-feira, Bicudo expõe algumas de suas idéias)

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Mar 07 2007

Coluna do Bicudo

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ATITUDE

Brasil. Neste país há um conjunto musical – que vende muitos discos – chamado Charlie Brown Jr. A banda é liderada por Alexandre Magno Abrão, o Chorão.

Chorão é líder porque canta, compõe grande parte dos sucessos de seu grupo e anda de skate (durante as apresentações musicais). Chorão tem atitude – que é atualmente tudo que o rock precisa ter – e eu não sei o que significa isso.

Dirigindo alucinadamente pelas ruas da cidade de Santos, S.P., Chorão atropelou uma barraca de cocos chamada Charlie Brown. Do incidente surgiu inspiração para o nome da banda.

Em meados de 2006 Chorão desferiu dois golpes em Marcelo Camelo, seu colega de profissão (integrante do grupo Los Hermanos): um soco e uma cabeçada. Foi a forma que ele encontrou para discordar de opiniões que Camelo registrara em entrevista, alguns dias antes do encontro.

De educação tribal e formação musical rudimentar, Chorão busca dar vazão a seus sentimentos por meio das letras que compõe. Este rude trovador costuma construir sua poesia valendo-se da livre-associação: método catártico que consiste no uso de frases desconexas registradas aleatoriamente, tornando a produção de sentido impossível e até mesmo indesejável:

“Tirou a roupa, entrou no mar / Pensei ´meu Deus que bom que fosse…´ / Tu me apresenta essa mulher / Mermão te dava até um doce / Sem roupa ela é demais…”

Algumas flertam com o surrealismo:

“Eu não sou o senhor do tempo / Mas sei que vai chover / Me sinto muito bem quando fico com você / Eu tenho habilidade de fazer histórias tristes / Virarem melodia vou vivendo o dia-dia…”

Hoje, amadurecido, o skatista parece estar comprometido com a formação moral de seus fãs. Uma prova disso são trechos da canção “Dias de luta, dias de glória” – uma jornada filosófica na qual ele relata momentos marcantes de sua interessante vida, para, no fim das contas, repassar as seguintes lições:

“Na minha vida tudo acontece / Quanto mais a gente rala, mais a gente cresce (…) / A vida me ensinou a nunca desistir / Nem ganhar nem perder, mas procurar evoluir…”

A vida é isso aí…

Obrigado.

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(Coluna do Bicudo é um espaço no qual, toda quarta-feira, Bicudo expõe algumas de suas idéias)

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Fev 28 2007

Coluna do Bicudo

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Nescau vs Toddy

Alimentamos-nos, em algum momento da infância, de achocolatado em pó. O costume permanece em muitos pela vida afora. Não foi meu caso – hoje prefiro cerveja. Mesmo assim, às vezes, ainda tomo o achocolatado matinal, já que ainda não bebo álcool pela manhã (hábito que pretendo cultivar posteriormente, já em minha fase decadente).

E a rivalidade sempre foi e sempre será a mesma: Nescau versus Toddy.

Pois eu lhes digo o seguinte: esta coluna possui uma opinião firme a respeito do tema.

Há quem diga que: “não tem diferença, é tudo a mesma coisa”. Pobres coitados. Nasceram sem o privilégio do paladar. São seres desprovidos da mínima sensibilidade culinária, criaturas cuja boca é apenas o orifício mais conveniente para a introdução de alimentos no organismo. É claro que existe diferença; muita.

O Nescau é dinâmico (o conceito de dinamismo alimentar é extremamente complexo para ser esclarecido aqui), mais light, tem menos chocolate em si, já vem com açúcar na medida certa e sucumbe ao gosto e à cor do leite. Ao ficar pronto adquire o aspecto desagradável da combinação mais bizarra de nossa culinária: o café-com-leite.

Já o Toddy é forte, encorpado e meio-amargo. Infinitamente superior. Se preparado na medida certa, supera o azedume do leite e deixa na boca uma sensação de sede-eterna que, associada ao tradicional copo d´água posterior, nos conduz aos limites do prazer matinal.

Prefiro beber a baba de um cão raivoso a cheirar um copo de Nescau.

Toddy é produzido pela Quaker; Nescau é produzido pela Nestlé. Eu realmente não tive motivos para prestar, agora, este inútil esclarecimento.

Sejam felizes.

Obrigado.

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(Coluna do Bicudo é um espaço no qual, toda quarta-feira, Bicudo irá expor algumas de suas idéias)

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Fev 21 2007

Coluna do Bicudo

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Possuído pela típica curiosidade juvenil – e na contramão do Oscar® que se aproxima – fui assistir Turistas: filme norte-americano em que um grupo de estrangeiros visita o Brasil e descobre (tarde demais) que o país é uma sucursal do inferno, repleta de emissários do mal.

Verossímil.

A idéia é boa e apropriada; o filme, péssimo – e isso nada tem a ver com a forma (correta) como o Brasil é representado: um local miserável, porém de grande beleza natural, onde o povo exala sensualidade, espontaneidade, ginga, malícia e tendência à desonestidade.

Mesmo antes de ver o filme imaginei que se tratava de um material bem ruim, mas pensei que seria mais engraçado.

Achei que os brasileiros, na ficção, se comunicariam através de dialetos e gestos tribais, viveriam em uma paisagem selvagem e primitiva, entre macacos e ratos, e se alimentariam de carne humana (adquirida após a execução de turistas que, mesmo ressabiados, aceitariam participar, junto com nativos antropófagos, de um hostil jogo de capoeira que por fim os conduziria ao caldeirão do Grande Pajé).

Nada semelhante acontece, os problemas são outros: direção e fotografia trabalham juntas no intuito inovador de impedir que o espectador, em cenas menos iluminadas, saiba o que está acontecendo. O roteiro, por sua vez, não permite que conheçamos minimamente seus personagens, o que inviabiliza qualquer modalidade de relação que uma pessoa possa ter com o cinema – incluindo o puro entretenimento.

No fim das contas resta a dúvida de qual bobagem é maior: o filme em si ou uma tentativa de boicotá-lo que andou circulando pela Internet. O filme merece não ser visto por ser péssimo enquanto cinema, não por maldizer o Brasil.

Ainda na contramão das indicações ao Oscar®, recomendo a todos que assistam Rocky Balboa. Aqueles que têm carinho pela série, sobretudo pelo primeiro filme, perceberão facilmente a grandeza deste último. Quem nunca viu nenhuma das várias edições anteriores terá uma excelente oportunidade para entrar em contato com o formidável protagonista concebido, dirigido e interpretado por Silvester Stallone, que – não sei se por sorte ou por talento – criou um personagem complexo, belo e profundo (e eu não estou brincando).

É difícil ver velhos clichês morais (o que deveria ser necessariamente chato) sendo transmitidos com tamanha honestidade e despretensão. O filme é edificante sem a pejoratividade do termo. Não há nada inédito, nada que falte em telenovelas escritas por Manoel Carlos (que atende pelo ridículo e condizente apelido de “Maneco”). No entanto, o que causa repulsão e constrangimento em Páginas da Vida (ou seja, toda e qualquer cena) faz refletir sobre a condição humana em Rocky Balboa (desde que tenhamos a nobreza de deixarmos de lado as limitações de Stallone como cineasta). O roteiro foi escrito pelo brutamontes que, como eu disse acima, assina também pela direção. Grande filme.

Obrigado.

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(Coluna do Bicudo é um espaço no qual, toda quarta-feira, Bicudo irá expor algumas de suas idéias)

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Fev 14 2007

Coluna do Bicudo

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“Estou aqui desautorizando publicamente a classe-média brasileira a falar em meu nome. Tenho vergonha da nossa opinião pública.”

Vagabundos cometem um crime atroz ultrapassando os já conhecidamente extensos limites da crueldade humana. A imprensa regozija e oferece um show de cobertura, afinando o discurso com a mediocridade de seu grande espectador – o povo brasileiro – que, comovido, empunha sua bandeira: “Chega de impunidade, queremos justiça!”. Tudo estaria corretíssimo até aí, caso o conceito de justiça do cidadão médio brasileiro não fosse tosco, rasteiro e medieval.

Surgem opiniões sofisticadas como: “Matou tem que morrer!”; “A solução seria soltar bombas nas favelas”; “Os políticos não fazem nada porque não aconteceu com o filho deles”; “Se o menor de idade é capaz de matar ele deve, seja qual for sua idade, apodrecer e sofrer eternamente numa cadeia sendo, de preferência, torturado diariamente”; “Os direitos humanos só servem pra atrapalhar a justiça”; “Nossas leis são brandas, devemos alterar todo (todo) o código penal e incluir nele a pena-de-morte”; “vamos importar guilhotinas da França!” – e por aí vai.

- Este povo sofrido e trabalhador! – Mentira, não somos um povo trabalhador e exaltamos a malandragem desde os anos 20 do século passado.

A classe-média é a grande porta-voz da sociedade brasileira (uau!). Essa sociedade – enquanto conjunto de pessoas que compartilham propósitos, costumes e preocupações – dá pena, em todos os sentidos. É conservadora, reacionária, limitada e contraditória. Pede justiça quando na verdade quer a pura e simples vingança; pede respeito às leis, mas acha que essas devem ser alteradas ao sabor da emoção vigente no momento; quer exterminar toda a bandidagem, mas não vive sem drogas e outros produtos oferecidos pelos mesmos marginais que quer matar; quer o direito exclusivo de ter armas – enfim, não sabe o que diz.

Aliás, nunca soube:

Apoiou o golpe de 64 porque tinha medo dos comunistas e inclusive organizou, junto com a Igreja Católica, uma curiosa – percebam o nome – Marcha com Deus e a família pela liberdade (cujo conceito de liberdade foi rapidamente adaptado pelos militares que assumiram por 25 anos o poder). Depois, quando anistia, voto-direto e democracia viraram moda, passou a defender tudo isso. No mais se ficava em casa assistindo pornô-chanchada, celebrando o milagre econômico e falando sobre algum parente distante que estava preso porque mexia com esse negócio de comunismo.

Agora pretendem, da noite pro dia, na pressão, reduzir a maioridade penal sem que exista nenhuma reflexão de especialistas a respeito de um tema complexo (e essa complexidade ultrapassa a querida sabedoria popular). É assim que nosso povo se mobiliza: olho por olho dente por dente, querem voltar para a aurora da civilização, Mesopotâmia, ou, mais legal, fundar um faroeste no Brasil. Vou comprar uma pistola e impor, a quem cruzar meu caminho, uma idéia pessoal de justiça.

A imprensa apóia. Estou aqui desautorizando publicamente a classe-média brasileira a falar em meu nome. Tenho vergonha da nossa opinião pública. Sim, a violência me revolta muito assim como a impunidade.

Obrigado.

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(Coluna do Bicudo é um espaço no qual, toda quarta-feira, Bicudo irá expor algumas de suas idéias)

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Fev 07 2007

Coluna do Bicudo

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Escreverei aqui semanalmente. A internet trouxe à tona alguns males da liberdade e eu representarei um deles. Escrever sem critério, proposta ou talento é um grave problema num mundo onde alguns ainda são profissionais da pena – não é meu caso –, dependem dela para viver e sabem dela fazer bom uso.

Escreverei aqui toda semana, mas me penitenciarei por isso – que fique bem claro. Não sou um escritor.

Meu fascinante apelido é Bicudo, o que pede alguns esclarecimentos:

Quando dizem que “fulano está bicudo” devemos entender que ele está bêbado, encheu a cara. Gosto de beber, mas não vem daí meu apelido. Bicudo é, também, o nome de um famoso pássaro – e aí a coisa se complica.

Não me pareço, em hipótese alguma, com qualquer tipo de ave.

Muitos por aí, embora humanos, apresentam cara-de-pássaro (problema que pode ser diagnosticado com a observação da coexistência, no indivíduo, de um nariz excessivamente extenso onde percebemos, entre sua base e o queixo, a formação de um ângulo obtuso ‘aquele entre 90 e 180 graus’). Pessoas assim têm desvios de caráter, tripla personalidade e o costume de incorporar hábitos comumente encontrados na classe das Aves, com destaque para a lamentável intenção de, na intimidade do lar, voarem batendo exaustivamente os braços – pateticamente em vão.

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Repito: não sou assim; chamam-me Bicudo por outras razões.

E enquanto não repensam a censura vou, de forma assumidamente amadora (e aí está a grande diferença), escrevendo por aqui.

Sirvam-se dos comentários, eles serão respondidos.

Obrigado.

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(Coluna do Bicudo é um espaço onde, toda quarta-feira, Bicudo irá expor algumas de suas idéias)

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