CARPE DIEM
Carpe Diem é chato.
A expressão latina passou a significar “sou superficial mas sei viver” – e costuma ser apregoada por pessoas que são simultaneamente: efusivas, dinâmicas, super-alegres, “de bem com a vida” (o que é isso?), livres e meigas.
Assistir “Sociedade dos Poetas Mortos” aos 15 anos e achar tudo aquilo uma grande lição de vida é salutar para um pré-adolescente. Sustentar a idéia pela juventude afora levando o fardo para a vida adulta – e destruindo a alegria alheia – já se torna preocupante.
E agora o mundo virou isso. Pessoas “amam a vida” e orgulham-se em dizer que vivem cada minuto intensamente (porque proceder assim representa algo positivo em algum planeta).
Vociferam o grito de guerra:
- Carpe Diem!
E prosseguem:
- Uau! Simbora, vamos lá, vivam, vivam! Vamos pular na piscina com roupa, tacar a mão no fogo, lambuzar, sair correndo na chuva, cuspir na cara dos inimigos, falar o que pensamos quando der na telha; Isso que é viver, o resto é resto, o resto é bobagem, vamos bebemorar!
(Espero que todos que costumam dizer “bebemorar” paguem caro por isso algum dia.)
Não importa o fato óbvio e triste de que quem vive assim costuma ter, todas as noites no quarto, sozinho, com as portas fechadas, um melancólico encontro com uma tristeza brutal. E assim é o eterno processo: no meio das pessoas, o teatro. Alegria, conselhos vazios, inconseqüência, intensidade. Sozinhos: a total falta de habilidade e destreza psicológica para lidar com sentimentos como: solidão e incerteza.
O ciclo descrito acima pode acabar culminando em suicídio. A pessoa não suporta o grande vazio que é sua vida e, no apogeu prático (e trágico) de sua máxima carpediana, com a contumaz intensidade, põe fim na própria vida.
Mas infelizmente isso nem sempre ocorre.
Sigo com fé. Espero que o Senhor desça (ou suba) do trono, rompa seu silêncio e venha explicar às pessoas que tudo é de fato uma grande aventura sem sentido, mas que isso é um motivo a mais para não sofrer (não o contrário).
Na pior das hipóteses, que Ele venha ao menos contar tudo que já contou pro Bergman.
Tentar conversar com Ele pode ser inútil. Provavelmente será. Certamente será. Ele é silencioso. Não responde, não fala. Já a morte discursa com fluência invejável e costuma sussurrar todos os dias nos nossos ouvidos. Tentar tapeá-la com falsa-alegria é, no mínimo, inocente. Isso não é “saber viver”.
Eu liguei pro Bergman*, foi ele quem me contou.
Ao final da conversa, com seu sueco macio, ainda disse:
- Carpe diem é o caralho!
Obrigado.
— — —
* Ingmar Bergman é um importante cineasta sueco. Muitos de seus filmes abordam, de maneira simbólica ou direta, o silêncio de Deus.
(Coluna do Bicudo é um espaço no qual, toda quarta-feira, Bicudo expõe algumas de suas idéias)