Possuído pela típica curiosidade juvenil – e na contramão do Oscar® que se aproxima – fui assistir Turistas: filme norte-americano em que um grupo de estrangeiros visita o Brasil e descobre (tarde demais) que o país é uma sucursal do inferno, repleta de emissários do mal.
Verossímil.
A idéia é boa e apropriada; o filme, péssimo – e isso nada tem a ver com a forma (correta) como o Brasil é representado: um local miserável, porém de grande beleza natural, onde o povo exala sensualidade, espontaneidade, ginga, malícia e tendência à desonestidade.
Mesmo antes de ver o filme imaginei que se tratava de um material bem ruim, mas pensei que seria mais engraçado.
Achei que os brasileiros, na ficção, se comunicariam através de dialetos e gestos tribais, viveriam em uma paisagem selvagem e primitiva, entre macacos e ratos, e se alimentariam de carne humana (adquirida após a execução de turistas que, mesmo ressabiados, aceitariam participar, junto com nativos antropófagos, de um hostil jogo de capoeira que por fim os conduziria ao caldeirão do Grande Pajé).
Nada semelhante acontece, os problemas são outros: direção e fotografia trabalham juntas no intuito inovador de impedir que o espectador, em cenas menos iluminadas, saiba o que está acontecendo. O roteiro, por sua vez, não permite que conheçamos minimamente seus personagens, o que inviabiliza qualquer modalidade de relação que uma pessoa possa ter com o cinema – incluindo o puro entretenimento.
No fim das contas resta a dúvida de qual bobagem é maior: o filme em si ou uma tentativa de boicotá-lo que andou circulando pela Internet. O filme merece não ser visto por ser péssimo enquanto cinema, não por maldizer o Brasil.
Ainda na contramão das indicações ao Oscar®, recomendo a todos que assistam Rocky Balboa. Aqueles que têm carinho pela série, sobretudo pelo primeiro filme, perceberão facilmente a grandeza deste último. Quem nunca viu nenhuma das várias edições anteriores terá uma excelente oportunidade para entrar em contato com o formidável protagonista concebido, dirigido e interpretado por Silvester Stallone, que – não sei se por sorte ou por talento – criou um personagem complexo, belo e profundo (e eu não estou brincando).
É difícil ver velhos clichês morais (o que deveria ser necessariamente chato) sendo transmitidos com tamanha honestidade e despretensão. O filme é edificante sem a pejoratividade do termo. Não há nada inédito, nada que falte em telenovelas escritas por Manoel Carlos (que atende pelo ridículo e condizente apelido de “Maneco”). No entanto, o que causa repulsão e constrangimento em Páginas da Vida (ou seja, toda e qualquer cena) faz refletir sobre a condição humana em Rocky Balboa (desde que tenhamos a nobreza de deixarmos de lado as limitações de Stallone como cineasta). O roteiro foi escrito pelo brutamontes que, como eu disse acima, assina também pela direção. Grande filme.
Obrigado.
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(Coluna do Bicudo é um espaço no qual, toda quarta-feira, Bicudo irá expor algumas de suas idéias)