08 Set 2007
Aguinha que passarinho não bebe

Por Fernando Americano
A vida na Rússia sempre foi muito difícil. Invernos rigorosos que duram quase o ano todo, guerras, mulheres brutamontes e pessoas falando russo nas ruas. Antigamente era ainda pior pois não era possível beber em eventos sociais como micaretas ou em apresentações do Bolshoi. Não que fosse proibido vender bebidas alcoólicas ou qualquer coisa do tipo, mas no século XII ainda não havia destilados e as bebidas fermentadas além de estragarem rapidamente davam um trabalhão danado para serem feitas. Portanto, as pessoas só bebiam em ocasiões muito, muito especiais como o nascimento de uma criança, uma vitória militar ou durante o funeral de algum ACM local. E pra ser sincero, nem devia ser tão divertido assim. As principais bebidas consumidas na época eram o hidromel (fermentado feito a base de água e mel), a cerveja e o vinho, todas com baixa graduação alcoólica. É muito difícil de se obter concentrações de álcool maiores que 15% pelo processo de fermentação, e vocês sabem, menos álcool, menos diversão.
Até que alguém, não se sabe exatamente onde nem quando embora eu possa imaginar o porquê, teve a idéia de destilar o vinho. A destilação elimina algumas impurezas deixando o liquido cristalino e com sabor mais suave. Este destilado era misturado à água para ser utilizado como remédio por suas propriedades anestésicas e desinfetantes (a propriedade de embelezar o próximo ainda não havia sido descoberta). A esta aguinha milagrosa os médicos deram o nome de… aguinha, ou vodca em russo.
Até que alguém percebeu que a tal aguinha podia até ser insípida descendo, mas era inesquecível subindo. O destilado passou a ser consumido como bebida, misturado à água em diferentes proporções. Era uma fonte inesgotável de alegria e prazer e de bebês em alguns casos.
Ainda estamos no século XV. Embora a bebida já começasse a ser produzida em escala maior e já houvesse as primeiras exportações, ainda não havia um padrão, um ISO qualquer coisa. Basicamente qualquer aguinha era chama de vodca, fossem elas feitas a partir do arroz, da batata, do centeio ou da uva, tivessem elas a graduação alcoólica que tivessem. Havia vodcas com até 90% de álcool. Sim, eles finalmente aprenderam a se divertir. Mas daí pro Bloody Mary vai uma distância enorme, o processo de destilação ainda estava iniciando sua evolução. A padronização só veio no século XIX, quando um químico russo chamado Dmitri Mendeleev passou um ano e meio de sua vida misturando água e álcool até concluir que a proporção ideal seria 40% de álcool para 60% de água, por peso. Mendeleev ainda continuou trabalhando como químico e foi autor de outras contribuições científicas menos importantes, como a invenção da tabela periódica por exemplo.
Embora os russos tenham batizado a bebida, algumas pessoas dizem que a vodca surgiu na Polônia e chegou à Russia como produto importado, para de lá tomar o mundo. A essas pessoas que pensam que a vodca surgiu na Polônia damos o nome de poloneses. A briga foi séria e na década de 70 algumas empresas resolveram reivindicar exclusividade para uso do nome “Vodka”, o que quase aconteceu graças à inexperiência com as regras do jogo capitalista por parte dos governantes russos. Onde exatamente foi produzida a primeira vodca não importa tanto, ambos os países são excelentes produtores da bebida e possuem várias marcas entre as melhores do mundo.
De que é feita a vodca afinal? De praticamente tudo! As primeiras vodcas eram feitas destilando hidromel ou vinho. Batata também foi muito utilizada, embora os destilados feitos a partir de tubérculos sejam considerados inferiores por seu sabor mais forte e característico. Depois de quase mil anos fermentando e destilando uma, duas ou três vezes tudo quanto é alimento que se possa imaginar, chegaram à conclusão de que o centeio era quem produzia o destilado de melhor sabor e qualidade, ou em outras palavras, que não causa ressaca nem dá amnésia. Com a escassez da matéria-prima em algumas épocas outros cereais como o trigo, aveia, o milho e a cevada foram utilizados, seja como base para a produção do destilado ou misturados ao centeio em pequenas quantidades. O trigo também produz um destilado com alto grau de pureza, sendo usado principalmente nas destilarias da Europa Ocidental e dos Estado Unidos. Neste lugares há a preferência por bebidas de sabor mais neutro, que melhor servem de base para coquetéis. Não há pecado maior na visão de um russo vodequeiro old school. Para eles a vodca deve ser desfrutada pura, (eu disse pura, vodca com gelo também é coquetel), e deve ser servida à temperatura ambiente, da Sibéria ou do seu freezer, o que estiver mais próximo.
Como bem disse o comediante Ron White: se a vida lhe deu limões faça uma limonada… e procure alguém a quem a vida tenha dado vodca para fazer uma festa!
Publicado por administrador at 21:35 em Jornal Letras



Bem escrito. Agradável de se ler e informativo, pena que tornei-me abstêmio.